Um composto encontrado em uma planta pode ajudar a impedir que células cancerígenas desenvolvam resistência a determinados medicamentos. A descoberta foi feita por pesquisadores do Centro Oncológico Sidney Kimmel, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
Em testes de laboratório e modelos animais, o triptolide aumentou a ação da decitabina — medicamento usado no tratamento de alguns tipos de câncer.
O estudo, publicado em 26 de agosto na revista Nature Communications, identificou que o composto bloqueia a ação de uma enzima chamada DCTPP1. As células cancerígenas usam essa enzima para destruir a forma ativa de medicamentos conhecidos como inibidores de DNMT antes que eles consigam agir.
Os remédios são usados para reativar genes que ajudam a controlar o crescimento das células e que podem ser silenciados pelo câncer.
Composto aumentou ação da decitabina
Ao testar diferentes substâncias, os cientistas identificaram o triptolide, composto encontrado na planta Tripterygium wilfordii, conhecida como cipó-do-deus-do-trovão. Nos experimentos, ele bloqueou a DCTPP1 e permitiu que a decitabina permanecesse ativa por mais tempo dentro das células.
A combinação aumentou a capacidade do medicamento de reativar genes supressores de tumor e de destruir células cancerígenas. Os efeitos foram observados em células cultivadas em laboratório e em modelos animais.
Os pesquisadores também encontraram uma associação entre altos níveis de DCTPP1 e resistência aos inibidores de DNMT. O dado reforça a hipótese de que a enzima participa dos mecanismos que permitem às células tumorais escapar desse tipo de tratamento.
Como o câncer bloqueia a ação dos medicamentos
As células controlam a atividade dos genes por meio de mecanismos que determinam quais deles ficam ativos ou inativos. Um desses processos é a metilação do DNA, que consiste na adição de marcadores químicos ao material genético.
As células cancerígenas podem usar esse mecanismo de forma anormal para silenciar genes que impedem a multiplicação descontrolada. Medicamentos como a decitabina atuam sobre esse processo e ajudam a recuperar a atividade desses genes.
O problema é que a enzima DCTPP1 pode destruir a forma ativa do medicamento antes que ele consiga se incorporar ao DNA das células tumorais. Com isso, o tratamento perde parte de sua eficácia.
“Isso nos dá uma maneira potencial de remover uma das barreiras que impedem que esses medicamentos funcionem efetivamente em muitos tipos de câncer”, afirmou Vasan Yegnasubramanian, autor sênior da pesquisa, em comunicado.
Tratamento ainda precisa ser testado em humanos
Os inibidores de DNMT, como a decitabina e a azacitidina, já são usados contra alguns tipos de câncer no sangue, incluindo leucemias e síndromes mielodisplásicas. O uso contra tumores sólidos, porém, ainda enfrenta limitações.
A pesquisa sugere que bloquear a DCTPP1 pode ajudar a tornar esses medicamentos mais eficazes em outros tipos de câncer. No entanto, os resultados são pré-clínicos. Ainda será necessário desenvolver substâncias que inibam a enzima com segurança e testar sua eficácia em seres humanos.
Os autores ressaltam que o estudo não demonstra que o consumo da planta ou de produtos derivados dela trate o câncer. O triptolide foi investigado como composto experimental, e não como uma terapia disponível para pacientes.
Fonte: Metrópoles










