A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos deve impor novos obstáculos à política externa do presidente Donald Trump. Com a retomada do controle da Câmara dos Representantes e do Senado, os democratas passam a ter instrumentos para fiscalizar decisões da Casa Branca, questionar operações militares e interferir na aprovação de recursos destinados a conflitos.

A mudança, que será efetivada em janeiro de 2027, inaugura um cenário de governo dividido no segundo mandato de Trump. O presidente continuará responsável pela condução da política externa e pelo comando das Forças Armadas, porém terá de lidar com um Congresso controlado pela oposição, menos disposto a respaldar sua administração.

Entre os principais pontos de tensão, estão a guerra contra o Irã, o apoio militar a Israel e à Ucrânia, e a política de pressão sobre países da América Latina.

A extensão dos efeitos da mudança, entretanto, dependerá da disposição dos democratas de utilizar as prerrogativas parlamentares. Embora a nova maioria possa dificultar a execução de parte da agenda internacional de Trump, ela não tem poderes para substituir automaticamente as decisões do Executivo.

Ao Metrópoles, Leo Braga, professor do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, ressalta que a principal transformação será a negociação entre os Poderes.

“Não significa dizer que os democratas terão uma vida muito mais fácil em relação a isso, não”, afirma.


Onda azul

  • A insatisfação com o custo de vida, a inflação e o aumento dos preços dos combustíveis somou-se à rejeição, às operações de imigração e ao envolvimento dos Estados Unidos em conflitos internacionais.
  • A guerra contra o Irã, em particular, aproximou duas preocupações do eleitorado: o custo econômico das decisões presidenciais e o questionamento sobre as prioridades do governo.
  • Para Fernanda Brandão, professora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, a onda democrata foi impulsionada principalmente pela rejeição à administração republicana e pelos efeitos de suas políticas sobre o cotidiano da população.
  • “A explicação para a onda democrática está, principalmente, na rejeição ao governo Trump e nos efeitos negativos que as políticas tomadas por seu governo têm tido sobre o custo de vida para a população americana”, afirma.

Guerra contra o Irã entra no centro da disputa

Iniciada em fevereiro de 2026, a ofensiva militar contra o Irã provocou impactos econômicos e políticos nos Estados Unidos, especialmente com a elevação dos preços dos combustíveis e o aumento dos gastos públicos.

A guerra também se tornou um dos fatores de desgaste eleitoral dos republicanos.

Com a maioria nas duas Casas, os democratas poderão questionar a continuidade das operações, convocar autoridades para prestar esclarecimentos e pressionar por maior transparência sobre os custos e os objetivos militares da administração.

O Congresso também controla a aprovação do orçamento federal, o que permite condicionar a liberação de recursos destinados à defesa. Na prática, os parlamentares podem dificultar a manutenção de uma operação militar caso não concordem com sua continuidade.

“Se o Congresso americano limitar o orçamento de defesa, não há recursos financeiros para produzir mísseis, para mandar tropas, para abastecer os navios das frotas com combustível”, afirma o professor.

A professora de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Fernanda Medeiros, também considera que o orçamento será um dos principais instrumentos de pressão da oposição.

“Condução de política externa é prerrogativa do Executivo, mas o Legislativo pode e deve acompanhar e cobrar. É isso que deve mudar: de um Congresso que referenda tudo o que a Casa Branca faz para um Congresso questionador e com vontade de investigar alguns elementos centrais da política externa americana dos últimos tempos, como o tarifaço, a interferência política em outros países e a guerra contra o Irã”, afirma.

Israel e Ucrânia

A nova configuração legislativa também deve observar com cautela a assistência militar concedida a Israel. O país é um dos principais beneficiários da ajuda norte-americana, mas a continuidade dos repasses pode enfrentar questionamentos de parlamentares democratas críticos ao apoio considerado incondicional ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Trump chegou a afirmar que pretende cortar o financiamento ao governo israelense.

No caso da Ucrânia, a vitória democrata pode aumentar a pressão sobre Trump para manter o apoio militar e financeiro a Kiev e as sanções contra Moscou. Desde o início do segundo mandato, o republicano reduziu o envolvimento dos EUA na guerra e pressionou Volodymyr Zelensky a considerar concessões territoriais à Rússia.

Braga avalia que o novo Congresso pode melhorar as condições de negociação para Kiev, principalmente ao dificultar a redução dos recursos destinados à defesa ucraniana.

“Esse engargalamento que se tem do orçamento americano, que vai pingando aos pouquinhos para a Ucrânia, isso deve melhorar”, afirma.

América Latina

Na América Latina, a mudança também pode ampliar a fiscalização sobre a atuação do governo norte-americano. Iniciativas envolvendo sanções econômicas, pressões diplomáticas e operações de segurança na região devem entrar no campo de observação dos parlamentares democratas.

A atuação do secretário de Estado, Marco Rubio, um dos principais responsáveis pela política de Washington para o continente, poderá enfrentar questionamentos mais frequentes no Legislativo.

Fernanda Medeiros destaca que a América Latina deve sentir os efeitos da mudança, sobretudo pela possibilidade de investigações sobre decisões tomadas pela administração Trump. A professora lembra que um grupo de congressistas democratas já havia cobrado explicações do governo norte-americano sobre uma possível interferência nas eleições brasileiras.

Para o Brasil, entretanto, não há expectativa de uma transformação imediata na relação bilateral.

Leo Braga avalia que o resultado eleitoral pode aumentar o poder de barganha diplomática de Brasília, especialmente diante de um presidente norte-americano que terá de negociar com uma oposição fortalecida.

Ele destaca que a permanência de Lula por mais quatro anos fragiliza Trump, que terá apenas dois anos restantes de mandato a partir de 2027, e pode alterar a dinâmica bilateral.

Fonte: Metrópoles